segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Afinal, o que é um “Médico de Família e Comunidade”? É o mesmo que “clínico geral” ou médico “de postinho”?







É comum as pessoas confundirem, ou mesmo definirem, o Médico de Família e Comunidade (MFC) como “um clínico geral” ou “clínico geral de crianças e adultos”, ou mesmo “médico de postinho”. No entanto, essas definições são simplistas e não traduzem verdadeiramente as competências de um médico de família e comunidade. Vou listar algumas razões.
  1-      O médico de Família e Comunidade é o profissional médico mais adequado para atuar na atenção primária à saúde: enquanto o clínico geral passa a maior parte da sua formação nos níveis secundário e terciário de atenção (clínicas especializadas e hospitais) o MFC, ao contrário, tem como principal cenário de aprendizado e atuação o nível primário da assistência, ou seja, é o especialista na atenção do primeiro contato (atenção primária é um termo mais adequado que atenção básica) do paciente com o sistema de saúde, ele guarda a porta de entrada no sistema, e é seu “gatekeeper” (“porteiro”). Para atuar como “porteiro”...
2-      ...O MFC deve ser um clínico qualificado, pois deve aprender a diagnosticar doenças em seus estágios iniciais e indiferenciados, ou caso o diagnóstico ainda não seja possível, deve desenvolver habilidades para lidar com a incerteza diante de algumas manifestações clínicas, regulando quais pessoas devem permanecer no nível primário de atenção e encaminhando os pacientes certos, no tempo certo, para o especialista certo. Encaminhamentos desnecessários, além de onerarem o sistema e prolongarem as filas de espera, ainda geram intervenções desnecessárias e...
3-      ... O MFC tem o dever de proteger seus pacientes de diagnósticos e tratamento desnecessários, potencialmente danosos, o que é conhecido como “prevenção quaternária”. Para isso, é muito importante a criação de vínculo com seus pacientes, o que pode ser garantido na atenção primária porque...
4-      ... O MFC acompanha seus pacientes de maneira longitudinal, ou seja, ao longo de um grande período de tempo, através das diversas fases da vida, pois o MFC tem sua medicina baseada em pessoas, famílias e comunidades, e sua prática não é voltada para determinadas faixas etárias, gênero, diagnóstico ou sistemas orgânicos.  Dessa maneira, mesmo que o paciente tenha problemas de saúde que devem ser acompanhados em outros níveis de atenção, o MFC nunca poderá “dar alta” a seus pacientes, pois...
5-      ... O MFC deve coordenar o cuidado prestado pelos especialistas focais. Isso significa que uma pessoa que seja acompanhada por três especialistas focais, por exemplo, deverá ainda assim permanecer vinculada ao seu MFC, porque é ele quem organiza o cuidado prestado por múltiplos especialistas com a visão generalista que possui. O MFC conhece a pessoa de maneira aprofundada, às vezes consulta todos os membros da família desse paciente, conhece sua comunidade e algumas vezes realiza consultas nas casas dos seus pacientes. Isso é um diferencial importante porque...
6-      ... O MFC deve ser capaz de fazer diagnósticos individuais, familiares e comunitários, e através desses diagnósticos, ser capaz de planejar intervenções sistêmicas. Essa competência do MFC é importantíssima porque muitas relações disfuncionais nos níveis familiar e comunitário podem influenciar o surgimento de doenças orgânicas (as psiquiátricas inclusas) e dificultar a adesão ao tratamento, por exemplo. Outros fatores também são capazes de interferir na gênese de doenças e dificultar o seu manejo e, para tanto...
7-      ... O MFC deve ter competência cultural. É a habilidade de entender e respeitar a pessoa, família e comunidade dentro dos seus hábitos, culturas, crenças, sempre levando em consideração que esses aspectos também se relacionam com os processos de adoecimento e tratamento e, por conseguinte, influenciam a sua prática médica, a ser norteada pelo...
8-      ... Método clínico centrado na pessoa. O MFC deve buscar não só diagnosticar a doença, mas também entender a pessoa que padece, suas crenças acerca do seu sintoma (que inclusive pode ser um diagnóstico ou não ter nenhuma explicação médica), as raízes do seu sofrimento, sejam conflitos familiares, traumas de infância, crenças religiosas, saber qual o significado do processo de adoecimento para a pessoa, o simbolismo dos seus sintomas e outros aspectos. Esse “mergulho nas profundezas do outro” exige do MFC mais uma ferramenta de trabalho, alcançada através de...
9-      ... treinamento de habilidades de Comunicação. Além de o MFC precisar ser um clínico qualificado, também deve ser um exímio comunicador. Deve aprender a “ler o outro” e a expressar-se através da linguagem verbal e não-verbal. Parte desse treinamento é conseguido através da filmagem de consultas (com o consentimento do paciente, obviamente), em que erros de comunicação podem ser melhor percebidos, além se verificar se a consulta foi bem estruturada e o gerenciamento do tempo está adequado. Aprender a gerenciar o tempo e conteúdo da consulta é mais uma competência que o MFC deve desenvolver, porque precisa permitir a todos os pacientes que necessitem, tenham acesso ao sistema de saúde, já que...
10-   ... o MFC é o médico responsável por uma população definida. Portanto, deve ser responsável por uma quantidade de pessoas que possibilite uma assistência adequada. Essa população pode ser definida tanto através de uma “lista” de pacientes cadastrados ou, idealmente, através de um território delimitado por aspectos sócio-demográficos, geográficos, históricos. Quando o MFC é o médico responsável por uma determinada comunidade, conhecendo intimamente boa parte de seus pacientes, o contexto familiar e comunitário...
11-   ... o MFC atua como um “advogado” das pessoas, famílias e comunidades sob sua responsabilidade, defendendo seus interesses, direitos e necessidades, já que entende a doença em toda sua integralidade (contexto biopsicossocial) e não apenas o padecimento de um órgão ou sistema específico (modelo biomédico), sem levar em conta o contexto da pessoa que adoece.

Dessa maneira, o médico de família e Comunidade não se resume a um “clínico geral” ou “médico de postinho”. O MFC é um médico de pessoas, famílias e comunidades; não é um médico que sabe “um pouco de tudo”, mas um médico que conhece profundamente as doenças mais frequentes na sua população, sabendo manejá-las com segurança e competência. O MFC nunca pode “dar alta a seus pacientes”, pois mesmo que seu paciente tenha uma doença que deve ser manejada pelo especialista focal, sua responsabilidade continua sendo cuidar da pessoa que adoece, em toda a sua integralidade.
O Médico de Família e Comunidade é o profissional médico mais adequado para trabalhar na atenção primária à saúde. A atenção primária, por sua vez, é o princípio fundamental de qualquer sistema de saúde efetivo.

Portanto, se queremos um sistema de saúde custo-efetivo, seja público ou privado, que atenda de maneira satisfatória à população, este deve basear-se no modelo da atenção primária à saúde e na atuação de Médicos de Família e Comunidade. As tentativas de manter ou inserir “pseudo- MFCs” na atenção primária, ou de investir em modelos que não priorizem o cuidado às pessoas nesse nível de atenção geram um ciclo vicioso de má assistência, insatisfação e custos elevados e, consequentemente, um sistema falido.