É comum as pessoas confundirem, ou mesmo
definirem, o Médico de Família e Comunidade (MFC) como “um clínico geral” ou “clínico
geral de crianças e adultos”, ou mesmo “médico de postinho”. No entanto, essas
definições são simplistas e não traduzem verdadeiramente as competências de um
médico de família e comunidade. Vou listar algumas razões.
1-
O médico de Família e Comunidade é o
profissional médico mais adequado para atuar na atenção primária à saúde: enquanto o clínico geral passa a
maior parte da sua formação nos níveis secundário e terciário de atenção
(clínicas especializadas e hospitais) o MFC, ao contrário, tem como principal
cenário de aprendizado e atuação o nível primário da assistência, ou seja, é o
especialista na atenção do primeiro contato (atenção primária é um termo mais
adequado que atenção básica) do paciente com o sistema de saúde, ele guarda a
porta de entrada no sistema, e é seu “gatekeeper” (“porteiro”). Para atuar como
“porteiro”...
2-
...O MFC deve ser um clínico
qualificado, pois
deve aprender a diagnosticar doenças em seus estágios iniciais e
indiferenciados, ou caso o diagnóstico ainda não seja possível, deve
desenvolver habilidades para lidar com
a incerteza diante de algumas manifestações clínicas, regulando quais
pessoas devem permanecer no nível primário de atenção e encaminhando os
pacientes certos, no tempo certo, para o especialista certo. Encaminhamentos
desnecessários, além de onerarem o sistema e prolongarem as filas de espera,
ainda geram intervenções desnecessárias e...
3-
...
O MFC tem o dever de proteger seus pacientes de diagnósticos e tratamento
desnecessários, potencialmente danosos, o que é conhecido como “prevenção quaternária”. Para
isso, é muito importante a criação de vínculo com seus pacientes, o que pode
ser garantido na atenção primária porque...
4-
... O MFC acompanha seus pacientes
de maneira longitudinal, ou seja, ao longo de um grande período de tempo, através das diversas
fases da vida, pois o MFC tem sua
medicina baseada em pessoas, famílias e comunidades, e sua prática não é
voltada para determinadas faixas etárias, gênero, diagnóstico ou sistemas
orgânicos. Dessa maneira, mesmo
que o paciente tenha problemas de saúde que devem ser acompanhados em outros
níveis de atenção, o MFC nunca poderá “dar alta” a seus pacientes, pois...
5-
... O MFC deve coordenar o cuidado
prestado pelos especialistas focais. Isso significa que uma pessoa que seja
acompanhada por três especialistas focais, por exemplo, deverá ainda assim permanecer
vinculada ao seu MFC, porque é ele quem organiza o cuidado prestado por
múltiplos especialistas com a visão generalista que possui. O MFC conhece a
pessoa de maneira aprofundada, às vezes consulta todos os membros da família
desse paciente, conhece sua comunidade e algumas vezes realiza consultas nas
casas dos seus pacientes. Isso é um diferencial importante porque...
6-
... O
MFC deve ser capaz de fazer diagnósticos individuais, familiares e comunitários,
e através desses diagnósticos, ser capaz de planejar intervenções sistêmicas.
Essa competência do MFC é importantíssima porque muitas relações disfuncionais
nos níveis familiar e comunitário podem influenciar o surgimento de doenças
orgânicas (as psiquiátricas inclusas) e dificultar a adesão ao tratamento, por
exemplo. Outros fatores também são capazes de interferir na gênese de doenças e
dificultar o seu manejo e, para tanto...
7-
... O
MFC deve ter competência cultural. É a habilidade de entender e
respeitar a pessoa, família e comunidade dentro dos seus hábitos, culturas,
crenças, sempre levando em consideração que esses aspectos também se relacionam
com os processos de adoecimento e tratamento e, por conseguinte, influenciam a sua
prática médica, a ser norteada pelo...
8- ... Método clínico centrado na pessoa.
O MFC deve buscar não só diagnosticar a doença, mas também entender a pessoa que
padece, suas crenças acerca do seu sintoma (que inclusive pode ser um
diagnóstico ou não ter nenhuma explicação médica), as raízes do seu sofrimento,
sejam conflitos familiares, traumas de infância, crenças religiosas, saber qual
o significado do processo de adoecimento para a pessoa, o simbolismo dos seus
sintomas e outros aspectos. Esse “mergulho nas profundezas do outro” exige do
MFC mais uma ferramenta de trabalho, alcançada através de...
9-
... treinamento de habilidades de
Comunicação. Além de o MFC precisar ser um clínico
qualificado, também deve ser um exímio comunicador. Deve aprender a “ler o
outro” e a expressar-se através da linguagem verbal e não-verbal. Parte desse
treinamento é conseguido através da filmagem de consultas (com o consentimento
do paciente, obviamente), em que erros de comunicação podem ser melhor
percebidos, além se verificar se a consulta foi bem estruturada e o
gerenciamento do tempo está adequado. Aprender a gerenciar o tempo e conteúdo
da consulta é mais uma competência que o MFC deve desenvolver, porque precisa
permitir a todos os pacientes que necessitem, tenham acesso ao sistema de
saúde, já que...
10-
... o MFC é o médico responsável por
uma população definida. Portanto, deve ser responsável por uma quantidade de pessoas que
possibilite uma assistência adequada. Essa população pode ser definida tanto
através de uma “lista” de pacientes cadastrados ou, idealmente, através de um
território delimitado por aspectos sócio-demográficos, geográficos, históricos.
Quando o MFC é o médico responsável por uma determinada comunidade, conhecendo
intimamente boa parte de seus pacientes, o contexto familiar e comunitário...
11-
... o MFC atua como um “advogado”
das pessoas, famílias e comunidades sob sua responsabilidade, defendendo seus interesses,
direitos e necessidades, já que entende a doença em toda sua integralidade
(contexto biopsicossocial) e não apenas o padecimento de um órgão ou sistema
específico (modelo biomédico), sem levar em conta o contexto da pessoa que
adoece.
Dessa maneira, o médico de família e Comunidade
não se resume a um “clínico geral” ou “médico de postinho”. O MFC é um médico
de pessoas, famílias e comunidades; não é um médico que sabe “um pouco de tudo”,
mas um médico que conhece profundamente as doenças mais frequentes na sua
população, sabendo manejá-las com segurança e competência. O MFC nunca pode “dar
alta a seus pacientes”, pois mesmo que seu paciente tenha uma doença que deve
ser manejada pelo especialista focal, sua responsabilidade continua sendo
cuidar da pessoa que adoece, em toda a sua integralidade.
O Médico de Família e Comunidade é o
profissional médico mais adequado para trabalhar na atenção primária à saúde. A
atenção primária, por sua vez, é o princípio fundamental de qualquer sistema de
saúde efetivo.
Portanto, se queremos um sistema de saúde
custo-efetivo, seja público ou privado, que atenda de maneira satisfatória à
população, este deve basear-se no modelo da atenção primária à saúde e na atuação de Médicos de Família e Comunidade. As tentativas de manter ou
inserir “pseudo- MFCs” na atenção primária, ou de investir em modelos que não
priorizem o cuidado às pessoas nesse nível de atenção geram um ciclo vicioso
de má assistência, insatisfação e custos elevados e, consequentemente, um sistema falido.
